Duas poltronas vazias frente a frente com uma esfera meio dourada e meio azul entre elas, representando Freud e Jung

Freud e Jung concordavam que existe um inconsciente atuante e que os sonhos têm sentido, mas divergiam sobre a natureza da libido, a estrutura do inconsciente e o papel da religião. A amizade entre os dois durou de 1907 a 1913 e deu origem a duas das maiores correntes da psicologia profunda.

Resumo rápido

  • Freud e Jung se conheceram em 1907 e romperam por volta de 1913.
  • Diferença central: Freud via a libido como energia sexual; Jung, como energia psíquica geral.
  • Jung acrescentou ao inconsciente pessoal o inconsciente coletivo e os arquétipos.
  • Jung nunca foi “aluno” de Freud: foram colegas, e depois criaram escolas distintas.

Neste artigo

Freud e Jung: como foi a relação entre os dois

Jung escreveu a Freud em 1906, enviando seus estudos sobre associação de palavras. Os dois se encontraram em Viena em março de 1907. Segundo o relato de Jung em Memórias, Sonhos, Reflexões, conversaram por cerca de treze horas seguidas. Em 1909, viajaram juntos aos Estados Unidos, para conferências na Clark University. Em 1910, Jung foi o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional.

Freud via em Jung, que era suíço, protestante e não judeu, um sucessor capaz de levar a psicanálise além do círculo vienense. Ele o chamou de “príncipe herdeiro” da psicanálise. Mas a relação, intensa, já trazia tensões.

Linha do tempo de Freud e Jung

AnoFato
1900Freud publica A Interpretação dos Sonhos; Jung começa no Burghölzli
1906Início da correspondência
1907Primeiro encontro, em Viena
1909Viagem aos EUA e conferências na Clark University
1910Jung é eleito presidente da Associação Psicanalítica Internacional
1911-1912Jung publica Transformações e Símbolos da Libido
1913Ruptura da relação pessoal
1914Jung renuncia à presidência e deixa a associação

A correspondência completa, publicada em português pela Imago, é uma fonte direta para quem quer ver o diálogo e as tensões entre os dois.

Freud e Jung: o que tinham em comum

  • Inconsciente: ambos reconheciam sua existência e seu efeito sobre o comportamento.
  • Sonhos, atos falhos e sintomas: ambos viam sentido neles, e não apenas acaso.
  • Método de fala: ambos defendiam que conversar sobre o conteúdo psíquico tem efeito terapêutico.
  • Importância da infância: ambos davam peso às experiências formativas, embora Jung insistisse também em tarefas da vida adulta.
  • Transferência: ambos reconheciam o vínculo afetivo entre paciente e analista como força central do processo.

Freud e Jung: principais diferenças teóricas

TemaFreudJung
LibidoEnergia essencialmente sexualEnergia psíquica geral, que pode tomar vários rumos
InconscienteFormado sobretudo por conteúdos reprimidosPessoal e coletivo, com arquétipos
SonhosRealização disfarçada de desejos reprimidosExpressão simbólica que compensa a consciência
SímboloDisfarce de conteúdos sexuaisExpressão da melhor formulação possível de algo ainda desconhecido
ReligiãoIlusão, projeção do desamparo infantilFunção psíquica com valor simbólico
NeuroseConflito infantil, em geral sexualDesequilíbrio entre consciência e inconsciente, ligado também ao presente
Foco da terapiaElaborar o passado e o conflitoSentido e processo de individuação

Para compreender a diferença sobre a libido, leia energia psíquica segundo Jung. Para entender a diferença sobre o inconsciente, leia inconsciente coletivo.

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Freud e Jung: a divergência sobre sonhos e símbolos

Os sonhos para Freud

Em A Interpretação dos Sonhos, Freud distingue o conteúdo manifesto, aquilo que lembramos, do conteúdo latente, o desejo reprimido que o sonho disfarça por meio de condensação e deslocamento. O método principal é a associação livre.

Os sonhos para Jung

Para Jung, o sonho não disfarça: ele fala em linguagem simbólica, e a função dele é compensar a atitude consciente. O método é a amplificação, que enriquece a imagem com paralelos de mitos, contos e religiões. Dessa forma, o sonho de uma pessoa pode ser lido também como expressão de padrões coletivos.

Freud e Jung: religião, ocultismo e a ruptura

Freud considerava a religião uma ilusão, tema de O Futuro de uma Ilusão (1927). Jung via nela um fenômeno psíquico legítimo, com função simbólica. O interesse de Jung por mitologia, ocultismo e parapsicologia incomodava Freud, que temia que a psicanálise perdesse a base científica. Em Memórias, Sonhos, Reflexões, Jung relata que Freud lhe pediu para jamais abandonar a teoria sexual, “o bastião contra a onda negra do ocultismo”.

Por sua vez, Jung sentia que o dogmatismo de Freud limitava a investigação. Esse choque, somado a questões pessoais de autoridade, levou à ruptura.

Freud e Jung na prática clínica

Na clínica freudiana, destacam-se o divã, a associação livre, a atenção flutuante do analista e a interpretação da transferência. Já Jung recebia os pacientes sentados frente a frente, em sessões menos frequentes, e dava ênfase à amplificação simbólica, ao trabalho com imagens e à imaginação ativa. Mesmo assim, ambos valorizam a relação entre analista e paciente.

Freud e Jung: qual estudar primeiro?

Não é preciso escolher. Estudar os dois, nesta ordem, costuma funcionar bem: primeiro Freud, para entender a base da psicanálise; depois Jung, para ver como ela foi ampliada e criticada. Um bom roteiro de leitura:

  1. A Interpretação dos Sonhos (Freud) e Cinco Lições de Psicanálise.
  2. Além do Princípio do Prazer (Freud).
  3. O Homem e Seus Símbolos (Jung) e Tipos Psicológicos.
  4. A correspondência entre os dois.

A formação em psicanálise apresenta esse percurso em módulos. Para conhecer melhor o suíço, leia Carl Gustav Jung: vida e obra.

Freud e Jung: conceitos centrais lado a lado

ConceitoEm FreudEm Jung
Complexo de ÉdipoNúcleo da neurose e da formação do sujeitoImportante, mas visto como um entre vários complexos
ArquétipoNão existe como conceitoEstrutura central do inconsciente coletivo
Estrutura psíquicaId, ego e superegoEgo, persona, sombra, anima/animus e Si-mesmo
SexualidadeMotor central do desenvolvimentoUma entre várias formas de energia psíquica
Tipos de personalidadeFases e caracteres pulsionaisIntroversão, extroversão e quatro funções

Essa comparação mostra que Freud e Jung falam de aspectos diferentes da mesma experiência: o primeiro enfatiza o conflito, o segundo, o sentido. Para estudar Freud e Jung, o melhor caminho é ler os dois, comparar e formar a própria leitura.

Herança de Freud e Jung hoje

Nenhum dos dois é aceito sem críticas. A psicanálise freudiana influenciou toda a clínica contemporânea, e a psicologia analítica influenciou a arte, a mitologia e a psicoterapia centrada em símbolos. Estudar Freud e Jung juntos protege contra a adesão dogmática a qualquer um deles.

Perguntas frequentes sobre freud e jung

Freud e Jung eram amigos?

Foram colegas próximos de 1907 a 1913, com intensa correspondência. A amizade terminou por divergências teóricas e pessoais.

Qual a maior diferença entre Freud e Jung?

A concepção de libido: Freud a via como energia sexual, enquanto Jung a entendia como energia psíquica geral.

Jung discordava de Freud sobre o inconsciente?

Sim. Jung acrescentou o inconsciente coletivo ao inconsciente pessoal descrito por Freud.

Quem veio primeiro, Freud ou Jung?

Freud, nascido em 1856, desenvolveu a psicanálise a partir de 1890. Jung, nascido em 1875, criou a psicologia analítica depois da ruptura.

Jung foi aluno de Freud?

Não. Foi colaborador e presidente da Associação Psicanalítica Internacional, em uma relação entre colegas.

Por que Freud e Jung romperam?

Por divergências sobre a teoria da libido, o ocultismo, a religião e a autoridade pessoal dentro do movimento psicanalítico.

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Fontes consultadas

  • FREUD, S.; JUNG, C. G. Correspondência completa. Imago.
  • JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. Nova Fronteira.
  • JUNG, C. G. Símbolos da Transformação, OC 5, Vozes.
  • FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos (1900); O Futuro de uma Ilusão (1927).
  • JUNG, C. G. Tipos Psicológicos, OC 6, Vozes.
  • GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. Companhia das Letras.

Por Equipe Habilidade Feminina. Conteúdo educativo; não substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.